



















A Casa de Cultura Jaime Lobo e Silva, na Ericeira, voltou a cumprir o desígnio implícito no nome do ciclo: as Quartas Perfeitas receberam um concerto que fez jus à promessa. Em formato intimista, Samuel Úria (com Silas Ferreira) apresentou o seu mais recente trabalho, 2000 A.D., perante uma plateia esgotada, confirmando a vitalidade de uma obra que continua a expandir o seu alcance.
Mais do que um alinhamento de canções, o espetáculo assumiu-se como uma travessia conceptual pelo imaginário do novo milénio. 2000 A.D. — disco que tem conquistado público e crítica e que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Canção pelo tema homónimo — surge como um exercício de arqueologia emocional do presente: há nele ironia, desencanto, ternura e uma permanente interrogação sobre o tempo em que vivemos. Ao vivo, essas camadas ganham corpo e respiração.
Num registo depurado, onde cada palavra encontra espaço para ressoar, Úria transformou a sala num território de partilha. A proximidade física ampliou a dimensão narrativa das canções, revelando o cuidado na construção lírica e a subtileza melódica que caracterizam a sua escrita. Entre os novos temas, surgiram revisitações de momentos anteriores da sua discografia, criando um diálogo fluido entre passado e presente como se o concerto fosse também uma linha contínua a ligar diferentes fases criativas.
Fiel à sua estética, o cantautor alternou entre a introspeção quase confessional e explosões de energia contida, lembrando que a sua música vive tanto da palavra pensada como da pulsação rítmica. Houve humor, houve silêncio atento, houve refrões partilhados em uníssono sinais claros de uma comunhão construída ao longo dos anos.
No final, ficou a sensação de ter assistido a algo mais do que um simples concerto: foi um encontro geracional e emocional, onde a música funcionou como máquina do tempo e espelho contemporâneo. Numa noite discreta mas intensa na Ericeira, Samuel Úria reafirmou-se como um dos cronistas mais singulares da canção portuguesa atual e deixou a promessa implícita de que, no ano 2000 ou em 2026, continuará a haver canções capazes de nos interpelar.
Ericeira, Mafra, 25 de Fevereiro de 2026
Vachier & Associados
João Rosado / João Rico, Noise Culture Music Magazine
